Perceber do latim percipere – conhecer por meio dos sentidos.

sexta-feira, 14 de maio de 2021

eu água

 Um dos meus sonhos na vida é poder ter um banho incrivelmente maravilhoso. Especialmente, com uma ducha quente regulável ao qual eu me sinta realmente dentro do útero de minha mãe. Que a água quente envolva meu corpo num conforto íntimo, levando embora toda a sujeira e tudo o que há de ruim em mim, na minha alma. Lavagem essa que massageia o espírito e os músculos duros dos traumas do dia a dia. Que eu me sinta uma só com a água e quando percebo, já somos a mesma coisa numa coisa só feita de germe de vida, em constante transformação que transita entre diferentes estados dependendo do ambiente em que se encontra (nos encontremos) e dos fatores que nos atravessem. Eu escorro e sou interminável. Inesgotável fonte. Energia. Balanço disforme conforme vou, conforme sou. E ali, no ato do banho uterino eu não quero nascer. Porque nascer dói. Dar de cara com o mundo, ser invadida por ele e atravessá-lo até onde me for permitido dói. Transforma. Não que a transformação tenha que ser dolorosa para que tenha sua validade. É que o mundo dos dias de hoje anda muito sujo e pesado, e pra lidar com isso requer muita força e adaptabilidade, características que a água também me proporciona, sendo assim possível fluir por esse planeta, fase por fase, estado por estado, tempo por tempo. Assim eu nasço todos os dias e continuo nascendo constantemente num espiral infinito onde a transformação interior é inevitável e necessária para o encontro contínuo com novas formas de mim mesma que encontrarei pelo caminho.

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